UMA PONTE PARA O PRESENTE:
COMO TECER AS RESISTÊNCIAS COTIDIANAS

Um rascunho semiárido sobre persistir, maravilhar e transtornar nos tempos do cólera

 

UMA CORRIDA CONTRA A LÓGICA

Mais sorte do que juízo: o fator definidor das eleições de 2018 foi o fato de que o inelegível não venceu no primeiro turno. O intervalo aberto entre a possibilidade e a confirmação do regime de terror criou um empuxo popular sensacional. A esquerda e o cidadão moderado sentiram-se inflamados pelo que era no fim das contas um recurso narrativo: o apelo irresistível da corrida contra o tempo, a crise que pode ser evitada no último minuto, a bomba-relógio que pode mediante um esforço coordenado ser talvez desarmada a tempo.

Teve bolo com bate-papo na rua, teve interação no metrô, teve os toques ilustres e precisos de Marcelo D2 e Mano Brown, teve uma compactação de forças de todos os lados digna de um crossover dos quadrinhos. Foi emocionante, foi vital para que se delineasse uma resistência e foi de uma enorme nobreza, mas não funcionou.

A questão de porque não funcionou pode estar relacionada ao tempo, mas o motivo de como não funcionou é aquele que conta.

Todas as soluções, das senhoras que puxavam conversa na calçada aos artistas que se manifestavam em todos os foros, baseavam-se na ideia do convencimento pela informação. Seu pressuposto era de que muita gente (de todas as classes sociais, mas especialmente as mais pobres) não sabia que estava votando num regime de terror que se mostraria fatalmente prejudicial para todos, especialmente para as minorias e para os menos favorecidos.Por um momento rolou a impressão de que o mundo teria sido salvo pelo acesso universal aos fatos. Tipo uma internet

Como não contar com a vitória da verdade? Bastava, rezava a ideia, bastava informar essa gente do risco à democracia e da eliminação das garantias mais essenciais e os votos começariam a virar como moscas.

E em certo sentido começaram, mas não no ritmo que seria de esperar, considerando como era fácil demonstrar o risco do inelegível, através de uma infinidade de vídeos em que ele mostra ser odiável sem adoçar a pílula e da recapitulação de sua história política consistentemente anti-trabalhadores.

A ineficácia relativa do método conversão pelo babe-papo gerou muitas culpas, algumas delas fundamentadas. Deveríamos então ter começado a informar essa galera antes, não é verdade? Ou: como falar dos riscos dos regimes militares a gente que ouviu falar da ditadura pela primeira vez pelo número de gente que começou a dizer que ela nem foi tão ruim?

Por um momento rolou a impressão de que o mundo teria sido salvo pelo acesso universal aos fatos. Tipo uma internet ao alcance de todos, em que os links certos pudessem conduzir a verdades embasadas, fulgurantes e redentoras.

Essa perspectiva ideal esbarra, em primeiro lugar, no número de gente escolarizada e diplomada, com acesso a todo tipo de informação embasada e à internet, que dedicou seu voto e o seu ativismo à truculência.

A reviravolta, já intuída pela análise da era Trump, é que em algum momento da Era Online a informação e a falta de informação passaram a contar cada vez menos. Num caso após o outro, mesmo no mundo real da calçada ou do metrô, muita gente que tentou o método um a um se descobriu interagindo não com uma pessoa mas com uma parede. Um firewall.

O fato que ficou claro é que os fatos deixaram em grande parte de contar.

NO VENTRE DO WHATSAPP

A cooptação da igreja, os círculos infernais de Facebook, a leniência e o apoio dos sistemas judiciários, o oportunismo e falta de tutano de veículos de imprensa e redes de televisão, a sexualidade reprimida da militância fascista – tudo isso contou e muito, mas o que determinou a singularidade e o destino destas eleições foi o que rolava no subterrâneo, além e abaixo das interações quotidianas, via whatsapp.

A insurgência whatsapp deve ser analisada em pelo três dimensões: a primeira diz respeito às intervenções pagas e às contas-robô, a segunda à estratégia de declarações contraditórias e de sinais trocados no pior estilo Trump. A terceira, que é a que quero salientar aqui, diz respeito à militância voluntária.

As primeiras duas dimensões, que dizem respeito à injeção contínua de notícias falsas e à estratégia de sinais trocados da candidatura militar, explicam em parte a terceira. A geral usava o whatsapp para espalhar notícias que, supondo fossem verdadeiras (não eram), tinham por como coisa grave que os canais de imprensa não estivessem divulgando. Das declarações contraditórias do inelegível e de seus representantes a militância extraía – em vez do receio que seria recomendável – serenidade, visto que bastava escolher a combinação de declarações que lhe parecessem mais aceitáveis e das outras lembrar “ele já disse que não vai ser assim”.

Mas esses fatores não explicam tudo, porque não explicam a intensidade dos afetos. Durante anos de governo do PT, a classe média que tende para a direita (e qual não tende) foi acumulando toda sorte de sentimentos de impotência e de frustração. A crise econômica trouxe à tona medos que essa galera não sabe gerenciar: medo de perder privilégios reais e imaginados, medo de ver interditado o caminho até a riqueza que ela crê ser o seu destino natural.

Esse pavor abriu uma vulnerabilidade no seu sistema que foi explorada pelo discurso fascista, injetado diretamente na veia dos afetos e relações por via digital.

Os afetos da classe média foram hackeados via whatsapp. “A grande mídia não manipula mais o nosso voto, agora temos a independência das redes sociais”

O militante do inelegível nunca chegou a acreditar na possibilidade de uma ditadura do seu candidato porque via o ativismo whatsapp como uma verdadeira insurreição democrática, uma frente popular levantada com estratégias e recursos raiz contra um sistema de imprensa corrompido e dominado pelo sistema. Foi convencido de que era a ELE a resistência, e o whatsapp a sua guerrilha.

Essa dinâmica estava clara mesmo entre os militantes do regime, como testemunha este tweet do dia da votação:

Avante Brasil, hoje mostraremos ao mundo que o tempo da cegueira absoluta chegou ao fim, o nosso presidente será definitivamente escolhido por nós, a grande mídia não manipula mais o nosso voto, hoje temos a independência das redes sociais.

A própria natureza do whatsapp, como se vê, levava o militante a sentir-se ele um defensor da democracia, parte de um movimento amplo, descentralizado e subversivo contra as arbitrariedades e negacionismos de um sistema autoritário. A esquerda falava através da imprensa, toda ela cooptada e comunista; os cidadãos de bem usavam um “canal alternativo” para restaurar a verdade, a representatividade e os canais democráticos de diálogo popular que os governos do PT teriam subtraído.

“A grande mídia não manipula mais o nosso voto” e “hoje temos a independência das redes sociais” quer dizer que a era da internet esclarecida que unia a todos chegou ao fim.

O que existe agora é a ultranet que nos separa – as redes em que as ideias são produzidas e divulgadas sem espírito crítico, sem compromisso com os fatos e sem qualquer registro e controle público.

Inútil vai ser apontar para links de artigos e notícias nacionais ou internacionais; inútil vai ser querer usar os fundamentos da cultura e da internet como base para apontar contradições e nuanças nas propostas e conceitos do regime; inútil vai ser pressupor uma base de discurso comum a partir da qual estabelece o diálogo. Rejeitar a internet que nos unia é num certo sentido rejeitar toda a cultura. Se Reynaldo Azevedo pode ser descartado como comunista, Francis Fukuyama também pode; Jesus com maior facilidade ainda.

Uma pesquisa recente determinou que 91% dos militantes de Trump o consideram uma fonte confiável de informação, enquanto 11% disseram a mesma coisa dos orgãos de informação. No Brasil da semana pós-eleições, quando a história do kit gay já foi demonstrada falsa dos modos mais redundantes e impermeáveis possíveis, 84% dos eleitores do regime ainda acredita na existência palpável do seu sonho erótico mais caro – e o próprio inelegível continua a falar dele como se tivesse existido.

Qual desses pelegos vai ser convencido a dar crédito à imprensa, à cultura, à ONU, a Cher ou a qualquer outra voz discordante (todas essas e outras aparentemente vendidas ao sistema comunista global), quando “agora temos a independência das redes sociais”? Só o discurso da anti-internet, fornecido diretamente nas veias da sociedade por Trump via twitter ou pelo inelegível via whatsapp, será considerado verdadeiramente antissistema, livre de rabo preso, livre de viés e intermediários ideológicos – e portanto comprovado e legítimo. Mesmo quando nunca deixou (e não deixará) de consistir de mentiras, falsificações e meias-verdades estudadas em comitê de modo a manipular de modo eficaz o cristão sem espírito crítico do outro lado do celular. Whatsapp com propósitos.

A era da internet esclarecida que unia a todos chegou ao fim

Era essa, no fim das contas, a receita para o apocalipse zumbi: um pedaço de programação e um pedaço de hardware na mão de cada pelego. O whatsapp (suprido na sua falta por outras redes como ele) possibilitou e gerou uma infinidade de células perpétuas, portáteis, autorregeneradoras, descentralizadas e impossíveis de rastrear de doutrinamento de extrema-direita. Podemos falar da eficácia do ensino à distância?

REALIDADE SEQUESTRADA, REALIDADE RECONQUISTADA

Essa, como se vê, vai um passo além da estratégia Trump (já adotada pelo inelegível) de dirigir-se ao mundo não através da imprensa mas através das redes sociais, desqualificando no mesmo gesto a imprensa e cultivando um senso de cumplicidade e de intimidade com o eleitor. Conforme:

No caso do Brasil, a coisa não acaba na desqualificação da imprensa. Uma inteira realidade foi orquestrada, colocada nas ruas em versão beta e posta à prova nas eleições de modo a gerar como produto final a realidade desejada (e adquirida) por um conchavo de elites. E o toque de mestre é que o grosso desse teatro e doutrinamento, o grosso dessa coordenação de mentiras e manipulação cirúrgica de rancores, foi se desenrolando longe da imprensa e da internet, longe do olhar público onde poderiam ter sido de outra forma diagnosticados, desmentidos e quem sabe desativados.

Agora que o inelegível foi legitimado, essa singularidade vai requerer estratégias de resistência radicalmente diferentes de tudo que temos tentado até agora.

Porque quando se critica Trump publicamente, isso só beneficia Trump privadamente. Quando se condena o inelegível na internet, na ultranet isso é tomado como clara evidência da sua inocência.

É essa a hidra de Lerna. Ninguém sabe como vencer, mas é sabido que é o monstro que nem Hércules conseguiu vencer sozinho.

Aprender a resistir a manipulador é coisa fácil não: você tem de ponderar continuamente até que ponto a sua estratégia de resistência não foi desenhada pelo manipulador. Na verdade ninguém sabe exatamente como fazer, e o mundo está enxergando o Brasil dos próximos meses (talvez anos) como um laboratório da resistência a esse tipo de cyberpopulismo antidemocrático. O planeta quer de fato saber se a música popular brasileira pode salvar o mundo. A chave está em que o fascista aposta todas as suas fichas numa visão única da realidade

A fim de reconquistar porções da realidade que o autoritário quer nivelar, será preciso velar pelo propósito comum num universo plural de estratégias. O plano deve ser tecer resistências, no plural, porque uma sorte única de resistência claramente não vai bastar.

A chave está em que o fascista aposta todas as suas fichas numa visão única da realidade, a sua, em detrimento de qualquer proposta alternativa. O fascista não é truculento porque é mau, ele é truculento porque se sente ameaçado pela diversidade, por toda aquela variedade de opiniões e destinos possíveis assinalada pelas notas de rodapé dos filósofos humanistas e por um leque de políticas identitárias, e está pronto a passar por cima de tudo e de todos para poder viver uma experiência mais simples, nada controversa, indefectível, papai-mamãe, que caiba na sua cabecinha. O fascista é um sujeito frágil, e para sustentar o debate é preciso colhões.

Não é a toa, cabe repetir e celebrar, que o inelegível não encontrou verdadeira penetração no nordeste – porque no nordeste a realidade é tradicionalmente representada de maneira diversa do que no resto do país. O nordeste é, entre outras coisas, a cura para o cabra ignorante que acredita que a cada alegria corresponde um privilégio. A singularidade de modos de fazer e de pensar que tornam a região uma fonte indomável de cultura popular e literária representa um grande transtorno para a narrativa de terra plana do projeto fascista.

Quando decreta o desejo do fim do “coitadismo nordestino”, o regime está na verdade exigindo que o nordestino deixe de representar, em dizeres e fazeres, uma alternativa à ideologia totalizante, perversa e pervertida, do “Brasil de todos os brasileiros”. Acusando o nordestino de vitimista, o regime assume o papel de falsa vítima ele mesmo, suposta vítima de inaceitáveis alternativas, de figuras que representam suposta “divisão” – mas ameaçam na realidade o candor falso e a integridade inventada da narrativa totalizante e totalitária.

Ameaça semelhante e imediata para a o regime são os índios, porta-vozes eles mesmo de modos muito diversos – e tidos portanto como subversivos e dignos de eliminação – de representar, apresentar e presentear a realidade. Índio é gente que por definição deseja uma outra coisa – e, num mundo em que todo mundo deve desejar a mesma maldita coisa, o fascismo vai fazer de tudo para eliminar esse mau exemplo.

Cada um dos demais alvos de silenciamento escolhidos pelo regime – negros, mulheres, homossexuais, pobres, comunistas, sem-terra, estrangeiros – são portadores de visões possíveis, de narrativas competidoras, de representações alternativas da realidade. É nessa qualidade que foram escolhidos como alvos de silenciamento e assimilação: o mero fato de existirem e de se identificarem como “somos” em contraste a “todos” os estabelece como embaraço ao sistema.Oferecer um modo de ver alternativo é já oferecer conforto, e no regime de terror todo conforto é subversivo

O comunismo, em particular, não é mau porque é comunismo, é mau porque representa uma alternativa, a Grande e Mais Ameaçadora Alternativa: tão grande que não se sabe nem exatamente como delimitá-la. É por essa razão que qualquer voz de dissidência, venha da parte do papa, do governo alemão ou da cantora Madonna, podem ser descartadas com segurança como comunismo. O que caracteriza como comunismo não é o conteúdo ideológico da dissensão, que deixou de contar, mas a simples ousadia de se apresentar como opinião diferente.

Para reparar o tecido rompido da realidade será necessário proteger e cultivar essas visões alternativas de mundo, cada uma, e muitas outras. Deixo aqui as minhas recomendações de como iniciar a fazê-lo; o universo, que é resistência, se incumbirá de lhe fornecer outras:

> TEÇA O SEU FIO INDIVIDUAL

Make your own kind of music: só você pode contar com os seus recursos, só você pode utilizar os seus recursos. Estenda o seu fio e ofereça a cada momento uma representação alternativa da realidade em modos de dizer e de fazer.
Tenha em mente que oferecer uma postura alternativa, um sorriso alternativo, um modo de ver alternativo, é já oferecer conforto, e no regime de terror todo conforto é subversivo.
Olhe ao redor e vai ver uma multidão de gente fazendo isso, cada um à sua maneira.

> AGANCHE O SEU FIO A UMA OU MAIS REDES

As narrativas individuais são já ocupação, mas quando se abraçam e se entrecruzam iniciam a produzir verdadeiros espaços de resistência. Espaços de resistência são ofertas visíveis de uma representação da realidade alternativa àquela da narrativa oficial. São já porções de realidade reconquistada, e funcionam como postos (mesmo que virtuais e descentralizados) de acolhimento – onde outras pessoas podem pelo menos por um instante, e quem sabe pela primeira vez, intuir que é possível resistir e de que modo.

> NA PLURALIDADE, VIGIE O PROPÓSITO COMUM

As resistências, agendas e estratégias serão muitas. O propósito comum, a não perder de vista, vai ser criar espaços de vida que denunciem, sufoquem e desativem a máquina do terror.

> CONTRIBUA PARA CRIAR ESPAÇOS IMEDIATOS DE SEGURANÇA PARA QUEM ESTÁ SOB RISCO IMEDIATO

É e permanecerá urgente criar e sustentar espaços físicos, espaços jurídicos, espaços ideológicos e espaços virtuais para quem está debaixo da mira prioritária do terror. Se não tem ideia de começar, toda uma rede de movimentos sociais já em andamento e se mostrará pronta pra oferecer toda sorte de indicações valiosas.

> CULTIVE A SUBVERSÃO DA ALEGRIA

Rir é resistir, e a alegria é a única sorte de recursos a que o autoritário não tem qualquer acesso. Muito na cultura que hoje em dia associamos à alegria e à espontaneidade, como o samba e a capoeira, iniciou como alegria subversiva diante da opressão. A alegria pode ser até punida, mas não tem como ser cooptada. Dance, aconchegue, cante, batuque, toque, recite, represente, provoque e dê risada. No regime de terror, toda alegria é subversiva.

> VAI TER POESIA

E sarau e serenata e roda de samba e chorinho e terreiro e parada gay e show de repente e bolo de leite.

> PROCURE SER PELO MENOS TÃO PROPOSITIVO QUANTO REATIVO

O método do terror, como se viu, será [1] propor uma avalanche contínua de acintes e barbaridades, propostas tão perversas e tão graves que [2] vão requerer condenação imediata, incisiva e coordenada. Essa reação vai [3] servir para amplificar a aprovação da proposta e o sentimento de defensiva entre os apoiadores do regime, enquanto [4] todo esse teatro serve de cortina de fumaça para encobrir manobras políticas entreguistas e dinheiristas.
Em prática, o regime de terror vai querer nos manter ocupados reagindo aos seus acintes em vez de propondo alternativas e representando a realidade de outras maneiras possíveis. A vantagem é aparentemente do regime, visto que suas propostas acintosas podem de fato (e frequentemente irão) representar ameaça imediata a diretos essenciais que precisam ser salvaguardados.
Ninguém sabe exatamente como vencer esse monstro, mas podemos estar perto de encontrar uma cura. Fique atento às indicações de gente como George Lakoff, Gabriel Dread, @viralattes e Leandro Beguoci.
Nesse ínterim, é preciso sublinhar a necessidade de resistências no plural, visto que nenhuma das duas frentes, a defensiva e a propositiva, pode deixar de operar num dado momento.

> OUÇA E ACOMPANHE AS VOZES DA RESISTÊNCIA

Eu mesmo estou prestes a entrar numas de falar o menos possível do inelegível, mas quero (e é vital) ao mesmo tempo manter-se informado. Se você não sabe como começar, acompanhe os meus likes no twitter e comece a seguir as luzes que se acendem. Vozes urgentes as de
@Cristiano_Barba
@AnarcoFino
@acacio1871
@carapanarana
@simas_luiz
@brumelianebrum

> DESMONTE TECNOLOGIAS: VÁ DE ACÚSTICO

A parte grossa da resistência, meu amigo, acontece offline – com alguma coordenação via redes sociais. Resistir é aproximar-se de um movimento social, mas também abrir a casa para leituras de poesia ou oferecer uma oficina de violão, de caligrafia ou de jardinagem. Compor alianças com o povo não é só a coisa mais estratégica a se fazer, é também a mais humana. Under His Eye, mas tocando vidas como só gente pode fazer.

> PODE SER PERIGOSO

Não é à toa que se chama resistência. Estamos falando de um regime que não esconde aprovar a tortura e a eliminação extrajudicial de oposições e ativismos. Diante dessa combinação explosiva, o primeiro item desta lista, “teça o seu fio individual”, pode bastar para colocá-lo na mira do sistema, quanto mais uma postura mais pública como afiliar-se a certos movimentos sociais.
Antes de calcular o custo de risco, considere duas coisas: primeiro, o fato de que a própria história das suas opiniões nas redes sociais pode bastar para colocá-lo sob suspeita. Segundo, o fato de que mesmo se você decidir oferecer resistência zero ao regime de terror, o regime pode resolver agir de modo mais ou menos arbitrário contra as suas liberdades e contra a integridade de quem você ama.
Resistir não é brincadeira, mas viver também não é.

> VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO

Vai ser complicado pra todo mundo, mas toda a ideia da resistência é encontrar espaços comuns nos quais existir e resistir. Você não está sozinho, nem na vida real nem na cultura. Encontre cumplicidade nos afetos, na amizade, na literatura, nos amores, na música e em tudo aquilo de humano em que a generosidade e a lucidez deixaram a sua marca.
E não se esqueça desta informação, que é importante: gente lúcida é gente boa e empática. Lucidez, bondade e uma dose saudável de cinismo são juntas expressões da mesma espécie de inteligência, aquela humana.

TER MEDO É NORMAL, DEIXAR-SE MOLDAR PELO MEDO É FASCISMO

Não é pra esquecer que foi o pavor de perder privilégios reais e imaginados que abriu na classe média a vulnerabilidade explorada pela narrativa fascista.E não se esqueça desta informação, que é importante: gente lúcida é gente boa e empática

Claro está que o fã de classe média do Bolsonaro está numas de vontade de morte – afetos de vingança, de violência e no fim das contas de autodestruição. Quem não se deixa condicionar pelo medo opera numas de vontade de vida – afetos de afago, de esperança e de criatividade.

O medo é tão barra pesada que em grandes doses consegue me fazer ignorar até mesmo as duas potências orientadoras que me dão equilíbrio, o amor e a razão.

Gente valente tem medo igual a todo mundo: só decide que não vale à pena em virtude do medo abandonar o amor e a razão.

Min@s, cultivem aí afetos de afago, de esperança e de criatividade. Amor e razão operando livres do medo são fontes renováveis de liberdade e de alegria – e esses são os recursos a que o autoritário não tem qualquer acesso.

Paulo Brabo
@saobrabo ◂ Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras