O ódio é o projeto

No que me diz respeito, rejeitar o ódio não tem nada a ver com amor ou com bondade: é um projeto inteiramente político, sendo o ódio é o método e a plataforma do meu antagonista.

Ele olhou a justiça nos olhos e a rejeitou, pelo que se sente inteiramente incapaz de se converter a ela. Mas acredita, e tem quase razão, que mostrando-se odiável poderá converter ao ódio a mim que digo interessar-me pela justiça. A justiça para ele não é uma tentação: o ódio para mim é. O ódio implementa o projeto, e a resistência da minha parte consiste em não dar a ele essa satisfação.

Estamos falando de gente que entendeu que em determinadas circunstâncias ser odiável não é uma desvantagem política. Ao contrário: é um diferencial, uma marca, um argumento de venda. A um público (ou fatia de mercado) cuja civilidade foi minada pelos próprios privilégios, o ódio pode passar por firmeza moral, por autoridade nata, por determinação, por independência intelectual.

O ódio não quer saber de conversa e é impermeável aos fatos e aos argumentos. Essa mesma irracionalidade, que torna o meu antagonista desprezível aos meus olhos, é aquilo que o torna irresistível aos olhos dos seus admiradores, inteiramente seduzidos que estão pela potência aparentemente irrefreável da sua irracionalidade masculina.

O ódio é perverso em que, sendo impossível vencê-lo com argumentos, parece sugerir que a única reação possível seja uma medida igual, recalcada e retribuída de ódio. Ele encontra perverso deleite em ser tratado na mesma moeda, porque sua plataforma é me convencer e ao mundo de que moeda não existe outra.

Com isso em mente, não quero esquecer que no meu caso a coisa realmente corajosa e truculenta a se fazer é resistir, e embasar minha resistência na minha própria integridade a na minha alegria. Protestar sem deixar de cirandar, reivindicar sem deixar de ir ao baile, propagar a sanidade sem deixar de bebericar, desmontar a falsidade sem deixar de procurar aquela rima, fazer política grossa sem deixar de sonhar com a cama.

Não quero e não teria como abandonar todo o cinismo e todo o pessimismo; com tudo de sério que está acontecendo, ninguém ouse me dizer que vai dar tudo certo sem confronto e sem oposição. Mas ninguém acredite poder me contaminar com o viés doido do ódio alheio, alienante e alienado. Quero é convidar todo o mundo a brincar e a comer quitutes na praça, que a esta altura é a única coisa sã e ponderada a se fazer. Quero lembrar aos ilustres colegas o projeto impossível de implantar e impossível de desimplantar da verdade com a poesia, da beleza com o conhecimento, do amor com a preguiça.

Quando (quem sabe a que custo, mas façamos de modo que seja em breve) a infâmia for publicamente derrotada e publicamente deplorada, quando as prioridades da resistência forem a normalidade de existência, vai restar uma multidão triste triste de ex-partidários da infâmia que vai ter de aprender a sambar e a abraçar. Alguém vai ter de reter as artes para mostrar a esses retardatários como se faz.

Paulo Brabo
@saobrabo ◂ Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras