Esta é a parte 1 de 3 da série A violência contra a moeda

Um enorme desenho a carvão suspenso no ar, um retângulo branco com oito metros de comprimento por quase três de altura, sendo o desenho a única coisa iluminado no salão escuro. Mirko, o anjo de Parma, tinha me guiado pelos corredores da Pinacoteca Ambrosiana de Milão numa peregrinação humanista cujo único verdadeiro fim era nos fazer existir por alguns minutos nesta sala escura, diante deste desenho.

Quinhentos e dez anos antes deste momento, em 1509, o pintor renascentista e superstar Rafael havia riscado na superfície deste papel a primeira linha e, passado um intervalo para nós incompreensível, também a última.

O desenho é a matriz de recalque, em tamanho natural, de um dos afrescos que Rafael pintou, contratado pelo papa Júlio II, para decorar a Câmara da Signatura, no Vaticano: um afresco para cada parede, representando a teologia, a poesia, a filosofia e a jurisprudência (seguindo o sonho renascentista de que ideias grandes e contraditórias podem ser conciliadas pelo simples fato de que os seres humanos são capazes, em diferentes momentos, de admirá-las todas).

No desenho diante de mim, feito para representar a filosofia (e a ciência, sendo que o divórcio entre uma e outra estava ainda para ser formalizado), cinquenta e tantas figuras se dispõem grosso modo em dois planos, a composição talhada ao meio por uma larga escadaria. É A escola de Atenas, uma representação visual — hoje se diria um infográfico — da história da filosofia ocidental através de suas figuras de destaque.

O afresco de cores refinadas feito a partir deste modelo a carvão se tornaria a pintura mais conhecida e apreciada de Rafael. Porém o retângulo branco diante de mim tem em seu favor o fato de ser um desenho: a seu modo inconcluso e sintético, definido por lacunas em vez de preenchimentos, por dinâmicas em vez de acabamentos, um desenho preliminar tem o potencial de ser mais desarmante e revelador do que a pintura finalizada.

A composição dA escola de Atenas convida imediatamente à interpretação. Eu teria talvez chegado por mim mesmo à conclusão de que as figuras no centro e no alto são Platão e Aristóteles – Platão apontando com o indicador para o céu e para o sublime, Aristóteles com a mão espalmada em horizontal, indicando a terra e a matéria. Olhando com atenção teria talvez reconhecido Sócrates pelas feições, Averróis pelo seu turbante, Pitágoras pelo assistente com a imagem de vasos comunicantes, Euclides porque está medindo triângulos com um compasso. Não tive ocasião de fazer esses percursos por mim mesmo: o folheto que o anjo de Parma tinha pegado na entrada me cobriu de spoilers assim que caiu na minha mão.

Eu estava emocionadíssimo de qualquer modo, não apenas pela natureza excelsa do traço de Rafael, mas por ter reconhecido imediatamente e sem ajuda externa, logo que entrei e pousei os olhos no desenho pela primeira vez, o filósofo que mais me interessa e comove em toda a história da filosofia: Diógenes de Sinope.

Fiquei emocionado por ter reconhecido Diógenes, e fiquei emocionado pelo motivo pelo qual Diógenes é tão fácil de reconhecer. Na composição rigorosa em que tudo é formal, alinhado e ideal, Diógenes é a única figura em desalinho. Reclinado descalço nos degraus da escadaria, lendo alguma coisa no seu tablet e inteiramente alheio à badalação e às disputas de poder ao seu redor, Diógenes é por suas convicções o sujeito despojado, despretensioso, largado, fora de linha. É um filósofo mas poderia ser um mendigo, e é o filósofo que não se ofenderia em ser confundido com um mendigo, considerando que se orgulhava de não ter possessões e falava de si mesmo como de um vira-latas, como alguém que tem natureza de cão: um cínico.

Viveu em Atenas, nasceu na Turquia, morreu em Corinto. Viveu quatrocentos anos antes de Jesus, mas é o mais articulado e potente spoiler do rabino desalinhado de Nazaré que a história antiga jamais produziu.

Frugal, provocador, intransigente, destruidor de ilusões e desafiador de convenções, inventor da palavra cosmopolita, homem sem posses possuidor de uma autoestima inoxidável, Diógenes é uma borboleta difícil de pinçar, mas era esse mesmo o seu intento e o seu método. Enquanto seus companheiros na escola de Atenas e na história da filosofia tinham todos muito a dizer, a refutar e a deixar esclarecido, Diógenes esperava que seus seguidores e admiradores entendessem dele esse ponto fundamental e original: que era o seu modo de vida e não o seu discurso a porção mais essencial do que ele tinha a dizer. E o seu modo de vida dizia, acima de tudo, que a independência intelectual de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de coisas que possui.

Perguntado o que pensava de Diógenes, Platão teria dito: “um Sócrates que desatinou”.

Diógenes, que tinha sem dúvida muito em comum com Sócrates (meu segundo filósofo preferido), não encontrou ao que parece necessidade de se defender dessa provocação. Ele não ignorava que, se quer dizer viver livre das convenções e condicionamentos que limitam a liberdade, o espírito e o intelecto, desatinar é o projeto. Fazia sem dúvida parte do projeto de Sócrates, viria a fazer parte do projeto de Jesus e da igreja primitiva, e era a vida inteira de Diógenes.

Paulo Brabo, me diz sem pudor o único homem em desalinho nesta sala elegantíssima de Milão: você tem é que desatinar.

E me fala com cadências do sertão.

Posted by:Paulo Brabo

@saobrabo ◂ Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras