A esquerda tem é que desatinar

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A cultura é a ferramenta que o ser humano usa para determinar aquilo que vale à pena ~preservar~ (a Amazônia, a catedral de Florença) e aquilo que vale à pena ~repetidamente criar~ (grandes amores, grandes livros, novas terapias, novas obras de arte).

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O capitalismo opera de modo a tornar sem efeito na cultura um seu componente ético (presente nela desde pelo menos a época de Sócrates) que sustenta que é o bem-estar da sociedade a indicar ao indivíduo aquilo que deve ser preservado e repetido.

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No capitalismo o indivíduo é adestrado a perder de vista o social e a crer que existe uma única raça de coisas que vale à pena ser preservada e repetidamente criada: os privilégios de consumo de cada um. Isso ao custo do que estiver no caminho: a Amazônia, a catedral de Florença, os ribeirinhos do Espírito Santo, a justiça, o futuro habitável do planeta.

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Seu dogma é “nenhum privilégio a menos” – mesmo quando a manutenção de privilégios exige a eliminação de direitos dos menos privilegiados. Mesmo, na verdade, quando exige a eliminação de direitos da própria classe privilegiada.

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Forçado a escolher entre direitos ou privilégios como a coisa a ser preservada e ampliada, o indivíduo sob o totalitarismo de mercado vai no fim escolher privilégios em detrimento de direitos, e os privilégios que vai escolher preservar e ampliar serão os seus de consumir.

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Chama-se sociedade de consumo não é por outro motivo: sua dinâmica é aquela do usuário de entorpecentes, pronto a penhorar cada aspecto da realidade ao seu redor, até mesmo sua casa e suas relações, de modo a não interromper o fornecimento.

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A esquerda como alternativa ao capitalismo não tem sido capaz de propor uma narrativa popular sobre o que vale a pena ser preservado e ampliado além (ou em vez) da capacidade de consumir. Consumir *menos* faz parte da narrativa da esquerda, mas não consumir *uma outra coisa*.

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Primeiro porque somos nós mesmos viciados no consumo. Como tudo no presente regime, o espaço da esquerda é distorcido pela força de gravidade universal do “nenhum privilégio a menos”. Existirá uma experiência rica e sustentável fora das dinâmicas do mercado, mas reside num nosso ponto cego – pelo que nos sentimos incapazes de propô-la 1O Movimento dos Sem Terra ele sim, proporciona uma grande, festiva e potente narrativa possível, e por isso merece a nossa atenção – e tem merecido a atenção do regime do inelegível, que deve procurar criminalizá-lo precisamente porque representa tão formidavelmente uma alternativa (e portanto uma crítica) à narrativa totalitária do regime..

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Outra parte do problema é a obsessão da esquerda em apelar para o intelecto, quando a própria direita desistiu de fingir seu apego à lógica e passou a articular e recompensar apenas afetos, criando realidades alternativas quase borgianas: narrativas fabricadas sem qualquer compromisso com os fatos – mas que servem ao mesmo tempo os seus interesses e se mostram emocionalmente satisfatórias para os seus eleitores.

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Se essas grandes narrativas orientadoras transformam e conduzem a realidade, a resistência ao totalitarismo de mercado deve aprender a criá-las e lançá-las ela mesma mundo afora.

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Nisso considero fundamental que a esquerda abandone o intelecto como alvo único ou prioritário dos seus apelos. Como já vimos, rolou por um instante a impressão de que o mundo seria salvo pelo acesso universal aos fatos, tipo uma internet – mas não bastou e não vai bastar.

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Não compartilho por exemplo do entusiasmo dessa galera que projeta erguer uma rede de produção de conteúdo popular via YouTube, conteúdo que estabeleça diante da geral os fundamentos de um debate civilizado, coisas tipo que a terra não é plana e que o nazismo não é de esquerda.

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Make your own kind of music, mas tenho por mim que o mais embasado debunking e a mais articulada série primeiros passos não têm como produzir um arranhão numa realidade sustentada através de mentiras – sendo a mentira a sorte de recurso particularmente renovável que é.

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A presente crise de mediação quer dizer que as pessoas vão continuar a relutar em dar crédito a qualquer leitura tradicional da realidade: seja científica, seja filosófica, seja o raio. Foram levadas a crer que as leituras tradicionais já foram suficientemente representadas na cultura, e que é hora de ouvir as vozes da dissensão.

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Defender a democracia e condenar a homofobia no YouTube só vai produzir diante desse público maior evidência de que as leituras tradicionais, “politicamente corretas” da realidade têm exposição excessiva na cultura, e que as vozes antissistema estão sendo silenciadas.

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O cabra não ignora que a biblioteca do bairro, a internet e o professor da escola vão lhe dizer cada um que a terra não é plana. Sabe dizer aqueles nas suas relações que vão lhe dizer que é verdade o aquecimento global. No YouTube ele respeita a mensagem, não o meio.

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A autoridade é da mensagem de dissensão, porque o sujeito vai acreditar em qualquer coisa que sustente a sua versão daquilo que no mundo deve ser preservado e ampliado: os seus privilégios de consumo.

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Cabe à esquerda levantar narrativas mais ambiciosas, populares, festivas e atraentes, sobre aquilo que nos espaços humanos merece ser preservado e ampliado.

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A esquerda não deve ter medo de não parecer científica, não deve ter medo de não se ater aos fatos.

A esquerda tem é que desatinar.

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Fato é que de todos os aspectos da cultura, a ciência é particularmente desprovida de ferramentas para indicar com clareza aquilo na experiência humana que vale à pena ser preservado e repetidamente criado. A poesia, a filosofia, a devoção e a arte podem fazê-lo com maior graça e gravidade.

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Pode ser hora de deixar por completo de criticar ou de falar do capitalismo. Pode ser hora de começar a criticá-lo ignorando-o por completo e passando a contar histórias sobre alternativas superiores – histórias que pertençam ao domínio do passado, do presente ou do imaginado, porque não faz diferença. Todas as histórias falam do ser humano e ao ser humano falam.

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Pode ser necessário deixar de pensar que o inelegível chegou ao poder através de fake news. Ele chegou ao poder através de histórias, contando uma história atrás da outra como faria João Grilo, e as histórias que contou foram melhores e mais interessantes do que as que contou a esquerda.

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Que não correspondiam aos fatos chega a ser secundário. A esquerda também tem histórias para contar sobre um mundo possível que não pertence (ainda?) à realidade objetiva. O mundo justo e ajustado pelo qual ansiamos precisa ser contado de mil formas, e que ele existe só nas nossas aspirações não é mentira.

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Lembrando que “os humildes herdarão a Terra” é fake news até deixar de ser.

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Lembrando que “liberdade, igualdade e fraternidade” é fake news até deixar de ser.

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Lembrando que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos” é fake news até deixar de ser.

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Lembrando que o discurso “I have a dream” de Martin Luther King Jr é fake news até deixar de ser.

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Lembrando que a Terra unida, federada, tolerante e comunista de Jornada nas Estrelas é fake news até deixar de ser.

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Essas descrições de mundo possíveis e desejáveis não se fundamentaram exclusivamente na realidade objetiva para iluminar aquilo que vale à pena preservar e repetir. A ciência é um aspecto fundamental da cultura, mas a verdade da justiça social é sempre inventada, e precisa ser perpetuamente articulada como uma utopia nova – até deixar de ser.

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Os e/leitores do inelegível decidiram que diante da narrativa que ele oferecia valia à pena ajustar a realidade à ficção, e não o contrário. Quem na esquerda está pronto a levantar uma história que leve o e/leitor a decidir que vale à pena ajustar a realidade à sua narrativa?

Notas   [ + ]

1. O Movimento dos Sem Terra ele sim, proporciona uma grande, festiva e potente narrativa possível, e por isso merece a nossa atenção – e tem merecido a atenção do regime do inelegível, que deve procurar criminalizá-lo precisamente porque representa tão formidavelmente uma alternativa (e portanto uma crítica) à narrativa totalitária do regime.
Paulo Brabo
@saobrabo ◂ Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras